GOV. LEONEL BRIZOLA:

27032017 - LEONEL BRIZOLA ESTAVA CERTO:

                                                                                                                                                

29122015 - POR QUE É FUNDAMENTAL REVERENCIAR LEONEL BRIZOLA:

A decisão da presidente Dilma Rousseff de incluir o político gaúcho Leonel Brizola na lista dos heróis da pátria faz justiça a um dos maiores líderes da história do País; em 1961, ele teve papel central na Campanha da Legalidade, que garantiu a posse de João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros; como governador do Rio Grande do Sul e, depois, do Rio de Janeiro, Brizola elegeu a educação como pilar central de suas administrações; com Darcy Ribeiro a seu lado, Brizola idealizou os Cieps, modelo do que hoje seriam os CEUs, da periferia de São Paulo; ao longo de toda sua trajetória, Brizola sofreu feroz oposição da Globo, que, em 1994, foi obrigada a lhe conceder um histórico direito de resposta; atacado de forma vil pela imprensa, Brizola sempre esteve ao lado dos trabalhadores.

A presidente Dilma Rousseff tomou uma decisão mais do que acertada, nesta terça-feira 29, ao incluir o político gaúcho Leonel Brizola na galeria dos heróis da pátria, fazendo justiça a um dos principais líderes nacionais do século 20.

Bastariam cinco motivos para que Brizola seja sempre lembrado ao lado de outros heróis nacionais, como Tiradentes e Zumbi dos Palmares. A eles:

1) Em 1961, como governador do Rio Grande do Sul, Brizola lançou a Campanha da Legalidade, por meio de transmissões diárias de rádio. Graças a sua resistência, João Goulart, que era vice de Jânio Quadros, pôde tomar posse após a renúncia do presidente, adiando assim o golpe de 1964.

2) Mais do que qualquer outro político, Brizola colocou a educação como pilar central de suas administrações, tanto no Rio Grande do Sul como no Rio de Janeiro, estado que também governou. Um de seus principais colaboradores foi Darcy Ribeiro, que idealizou os Cieps, escolas modelo que foram inspiração para os CEUs, da periferia de São Paulo.

3) Brizola sempre atuou em defesa dos interesses nacionais e dos trabalhadores. Primeiro, no PTB, de Getúlio Vargas. Depois, no PDT, que ele próprio criou, após o PTB ter sido empastelado pela ditadura militar.

4) Combatido de forma vil e implacável pelos meios de comunicação conservadores, em especial pela Globo, Brizola sempre denunciou o poderio das oligarquias midiáticas. Em março de 1994, ele obteve um direito de resposta histórico, lido por Cid Moreira, em pleno jornal nacional.

5) Em 1989, na primeira eleição presidencial após a redemocratização, Brizola era a grande esperança da esquerda brasileira. No entanto, por uma margem mínima deixou de ir para o segundo turno contra Fernando Collor. Mesmo derrotado, Brizola não hesitou em apoiar o operário Lula e cunhou uma de suas frases mais lembradas. Disse que a elite brasileira ainda teria que "engolir o sapo barbudo".

Leia, ainda, texto de Fernando Brito, que colaborou diretamente com Brizola e hoje edita o Tijolaço:

Veja porque Brizola merece ser um herói da pátria:

Dilma Rousseff sancionou hoje a lei que inclui Leonel de Moura Brizola no Livro dos Heróis da Pátria.
A lei, proposta pelo então deputado Vieira da Cunha em 2013, foi aprovada pelo Senado este mês.
Coincidência ou não, tem um significado nestes dias em que o golpismo trama contra a democracia.
De tudo o que fez, há algo em que Brizola é único.

Governar três vezes dois Estados diferentes, ter um terço dos votos de todos os cariocas como candidato a deputado no Rio de Janeiro, recém chegado aqui, em 1962, outros podem alcançar.

Sair da roça, de pés descalços e tornar-se um dos políticos mais importantes do país, Lula provou que é possível e até mais além do que permitiram a Brizola ir.
Amar as crianças e a educação, ainda bem, tem na mesma linha Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Anísio Teixeira, tantos…
Mas ter se erguido com a solidão e a coragem contra a ousadia de todos os ministros militares, a covardia dos políticos e a cumplicidade da mídia para evitar – ao menos por três anos – um golpe e uma ditadura, perdoem-me só ele.
Leonel Brizola é, agora com as formalidades, um herói da pátria.

Porque não há pátria sem povo, não há povo sem liberdade e a liberdade tem seus heróis tanto em quem a conquista como em quem a defende à custa de sua própria vida.

Há 15 anos, contra a vontade de Brizola, que achava que não tínhamos meios, fiz um vídeo sobre os instantes heroicos de 1961, com imensa pobreza de recursos e talento, mas com uma imensidão de desejo de dar – no final de sua vida – ao meu comandante por 20 anos a emoção que aqueles acontecimentos haviam lhe dado 40 anos antes.

Sem saber, eu começava ali as despedidas de alguém que, para mim, nunca se foi. Só quase três anos depois, na véspera de sua morte, ele apertaria tão forte a minha mão.

Divido com vocês o privilégio de ter podido reconstituir os dias de herói do agora e sempre Herói da Pátria Leonel Brizola.

10 ANOS SEM BRIZOLA:

 

A editora Caros Amigos lança a edição especial que marca os 10 anos da morte de Leonel Brizola. A edição, que está nas bancas, traz entrevistas, artigos e reportagens que cobrem toda a trajetória de um dos políticos mais importantes do País: a Cadeia da Legalidade, o exílio, sua briga com Roberto Marinho e Rede Globo; a luta em defesa da democracia; a militância contra o golpe civil-militar de 64; a campanha pela redemocratização e uma entrevista exclusiva com a neta, Juliana Brizola, que segue os passos do avô.

Confira abaixo o editorial e o sumário do especial.

Editorial:

Rever Leonel Brizola e seu legado político não é apenas questão de memória e história. Em um momento em que o Brasil conquista alguns avanços sociais, espremido entre o desejo progressista e a máquina conservadora, olhar para as ideias que o líder gaúcho defendia é um farol em meio às idas e vindas, com manobras e casuísmos, de um País cuja elite, agora tingida de neoliberal, renega o direito de ser uma nação soberana e socialmente justa.

Nunca se saberá se a reação ao golpe civil-militar de 1964 oferecida por Brizola – mas abortada com a desistência de João Goulart em lutar – poderia ou não ter dado outro rumo ao Brasil e qual. Mas certamente sua defesa por reforma agrária, educação e energia (sobretudo o petróleo e a Petrobras) teria sim levado o País a outro patamar entre as nações do mundo, sem o servilismo e as opressões imperialistas que ainda hoje amarram governos e subjugam interesses nacionais. Capacidade não lhe faltaria, já que deixou exemplos de lutas e vitórias: seus governos no Rio Grande do Sul, quando nacionalizou empresas estadunidenses, criou mais de seis mil escolas e melhorou o transporte público; a Campanha da Legalidade, que garantiu a posse de Jango em 1961; a reação à ditadura com a Guerrilha do Caparaó e seus governos no Rio de Janeiro, que mostrou ao País que outro Brasil é possível - ainda que os governos cariocas posteriores tenham destruído sua obra.
Brizola não era deste ou daquele estado – aliás, foi o único a ser eleito governador e deputado por estados diferentes. Era uma liderança nacional, reconhecida internacionalmente, uma esperança para o povo pobre e despossuído que ainda tinha e tem na lembrança o nome de Getúlio Vargas e tudo o que este representou para os trabalhadores. Era, como diz em entrevista nesta edição especial a neta Juliana Brizola, um político que não tinha medo de assumir suas ideias e de enfrentar as forças que fossem, como fez toda a vida, até depois da abertura política, quando tornou-se uma pedra no sapato dos ex-ditadores e da elite golpista. Desse período, uma batalha emblemática foi contra o então dono da Rede Globo, Roberto Marinho, que não se cansava de desancar, manipular ou omitir ações de sua administração – depois de chamá-lo de "velho senil", Marinho teve que engolir um memorável direito de resposta em seu telejornal mais visto no Brasil.
Esta edição especial marca os 10 anos da morte de Brizola – seu legado, a vida de menino pobre, sua atuação na política. Mas sabemos que ele vive na alegria do samba, na miscigenação das raças, nos morros, nos pampas, na caatinga, nas marcas do povo brasileiro. Brizola veio deste povo, humilde e sofredor, e nunca o perdeu, como fazem outros políticos. Ele vive no "socialismo moreno" de Darcy Ribeiro que aqueles comprometidos com as boas causas ainda sonham construir.

BRIZOLA, O BOM COMBATENTE:

 

O texto abaixo foi escrito por mim um dia após a morte de Brizola e publicado no site da revista Caros Amigos. Publico neste blog celebrando os 90 anos de seu nascimento que se completam neste dia 22/01.
O ano era 1982, eu tinha quase dezessete anos. Estava entrando na Biblioteca Nacional, centro do Rio, para fazer uma pesquisa sobre explosivos. Mas o som bombástico veio do outro lado da rua. Num palanque tosco, montado à frente da Câmara Municipal, discursavam militantes políticos de um partido nascente, diante de uns cem aguerridos e curiosos. Um nome se repetia em todas as falações: Leonel de Moura Brizola.
Não, naquele dia não fiquei, fiz minha pesquisa e fui embora. Mas eu vira a marola que antecedera uma onda. Poucas semanas depois, lá estava eu empolgado com o crescimento da candidatura ao Governo do Estado daquele líder que voltara há menos de três anos do exílio, e que no início me parecera apenas uma figura exótica. Não pude votar naquela época, não havia o voto aos 16. Mas panfletei, fui a debates, comícios, colei adesivo em tudo quanto era lugar, discuti nas ruas, nos bares, nos ônibus, não fiz pichação mas morri de inveja de quem fez. "Brizola na Cabeça e no Coração", era o lema. Calculo que consegui pessoalmente uns 50 votos. Para dar uma noção do envolvimento, meu pai era candidato a vereador em Angra dos Reis, mas pelo PMDB (nem poderia ser pelo PDT, o partido ainda não existia lá) e eu fiz muito mais a campanha de Brizola do que de meu pai que, graças a Deus, não brigou comigo, afinal eu morava em outra cidade e ele acabou gostando de não ter sido eleito. O último comício daquela campanha foi no mesmo lugar do primeiro, o que vi das escadarias da Biblioteca. Só que dessa vez havia mais de cem mil pessoas na Cinelândia. Ganhamos a eleição? Não, ele ganhou sozinho, nós só o seguimos. Não havia dinheiro, o partido não estava organizado na maioria dos municípios, havia três candidatos fortíssimos (Miro, Moreira e Sandra), todos com muito mais dinheiro e apoio da mídia. Mas deixaram o homem falar... Aí não teve pra ninguém, nem a fraude na apuração segurou a fera.
Foram várias campanhas, comícios maravilhosos, mais derrotas que vitórias, fui militante durante dez anos e, bem, eu também um dia me afastei politicamente do Engenheiro, cansado do seu método (ou de sua falta de) de fazer política. Não, não entrei no PT, estive perto, mas sempre achei meio estranha a postura daquele pessoal. Faltava neles a paixão, o tesão, o nacionalismo sem-vergonha, a identidade brasileira, a cara de povo que eu vira nos (efêmeros) tempos áureos do PDT. Hoje, essas diferenças estão mais fáceis de entender, até porque vários dos petistas históricos encontram-se tão perdidos quanto eu, que não consegui deixar de ser trabalhista, e o trabalhismo ainda é muito mais histórico que o petismo. Acontece que essa perplexidade perante o governo Lula não haveria com Brizola, simplesmente porque todos sempre soubemos como ele era, ele sempre pôs a cara a tapa, nunca se escondeu atrás de postos honoríficos ou simbólicos. Seu relativo desprezo pelos cargos legislativos se explica porque logo ele, um mestre da oratória, não se interessava em discursar, queria agir, e a caneta de executivo lhe fascinava muito mais do que o púlpito do parlamentar.
Falam muito dos muitos erros de Brizola, que ele tinha boas intenções, mas poderia ter feito assim, ter feito assado... Falta afirmar que o que criou obstáculos para Brizola e o afastou do poder não foram seus erros, mas suas prioridades. As Crianças e a Educação eram sua obsessão, era nesse caminho que ele via a salvação do País. E isso incomodou demais. Das elites à classe "mérdia", corriam murmúrios de assombro pela possibilidade daqueles "neguinhos" terem as mesmas oportunidades que eles. Ele foi o único político de relevo na nossa história a bater de frente com o sistema Globo, e o nascedouro desse confronto não foram as posições políticas conservadoras do seu proprietário, mas quando o Roberto Marinho disse a ele que esse negócio de escola integral não era para todo mundo. Aí o homem ficou bravo!
Dizem que ele era uma raposa política. Menos para si próprio. O homem enxergava muito longe, tão longe que não via os traíras que o cercavam, a não ser quando era tarde demais. Cansou de ir contra o senso comum, para só muito tempo depois os fatos confirmarem as suas teses. Nunca optou pelo que era mais conveniente, mas sim pelo rumo que sua consciência indicava. A frase "Brizola tinha razão" só não foi mais repetida por vaidade dos "sabidos" que pensam que são sábios. Se jogasse futebol, Brizola seria centroavante, daquele trombador, para quem não existe bola perdida. Que, de cara pro goleiro, chuta na arquibancada e depois faz um gol sensacional, e a galera adora e odeia ao mesmo tempo. Se fosse um super-herói, seria o Demolidor, um cego que vê mais que quem enxerga, que mora num bairro pobre e todo mundo conhece a identidade secreta, que prefere ser advogado dos desvalidos e não dos abonados.
Não fiquei tão triste com sua morte. Ela vem para todos, e o atingiu ainda lúcido, lutando, embora politicamente vencido. Tinha que ser do coração, que o norteou muito mais do que o cérebro, e já devia estar muito cansado. Como Paulo, combateu o bom combate, perseverou na luta, manteve a fé. Do outro plano (ele sempre estará do nosso lado), tenho certeza que continuará lutando pelas suas crianças, nós todos que vivemos nesse grande orfanato chamado Brasil. Não deixa herdeiros legítimos e de vulto, mas seu legado não será abandonado. Talvez a pessoa que mais encarne hoje esse "Homo Guerreirus" que foi Brizola seja a senadora Heloísa Helena, mas ainda é muito cedo para afirmar isso.
Falta ainda dizer que meu Rio de Janeiro vive numa violência tão grande, e os sacanas e ignorantes dizem que foi porque o Brizola "liberou geral" as drogas e o crescimento das favelas. O que ele fez foi dizer que os pobres tinham que ser tratados como cidadãos, que todos mereciam as mesmas oportunidades. Com todos os equívocos que possa ter havido, se o Programa Especial de Educação (o dos CIEPs, ou "Brizolões") tivesse sido mantido e aprimorado, e não destruído, viveríamos numa Cidade e num Estado muito mais felizes. Brizola foi sempre sabotado, pela esquerda arrogante e pela direita raivosa. E, infelizmente, o mesmo povo que ele sempre defendeu muitas vezes cai na conversa desses malandros, no mau sentido. Observem que não falei nada de Cadeia da Legalidade, das encampações dos grupos econômicos estrangeiros, enfim, das lutas dele no período pré-anistia. Não foi de propósito, mas ficou melhor assim, afinal de contas dessa época muitos falaram e vão falar, e eu preferi contar um pouco do Brizola que vi e vivi, não do que me contaram.
Muito Obrigado, Leonel Brizola! Um grande abraço para a Dona Neusa, o Darcy, o Jango, o Getúlio e tantos outros que certamente prepararam um belo churrasco para você!

LEONEL BRIZOLA:
Por Jânio de Freitas

"Os principais adversários de Leonel Brizola vão se perdendo nas entrelinhas da história. Alguns deles chegaram a níveis muito altos de importância política em seu tempo, mas não se fizeram marcar como personagens da grandeza ou da tragédia de um momento que a história não consiga esquecer. O levante iniciado e liderado por Brizola em defesa da legalidade constitucional e do regime democrático contra o golpe que as Forças Armadas perpetravam, em 1961, é um dos momentos épicos que demarcam a história, indeléveis e quase sempre únicos.
Um governador que lá do último sul ousa dizer ‘não aceito’ às Forças Armadas do país todo, e só com a sua polícia militar inicia uma resistência cuja convicção conquista parte dos militares estacionados no Estado, e vence afinal -essa é uma cena a que ninguém pode negar o lugar de culminância na penosa luta pela democracia no Brasil. Culminância diferente da outra, a resistência armada à ditadura, porque não se nutriu de razões ideológicas, do projeto de revolução social, mas tão só da legalidade e da democracia como expressa na Constituição.
A coragem pessoal e política de Brizola já lhe reservaria um lugar especial no último meio século brasileiro. Mas a lealdade que teve às suas idéias, por tanto tempo, é outra característica pessoal e política sem paralelo entre os seus adversários e aliados. Em outro aspecto, o da lisura, não seria caso isolado, mas é caso único em um sentido: ninguém teve a vida mais esmiuçada pelos Inquéritos Policiais Militares, às dezenas, algumas investigações por mais de dez anos; nenhum governador foi jamais tão espionado, grampeado, seguido, investigado quanto Brizola quando governador do Rio -e nada, nunca foi encontrado sequer vestígio de improbidade.
O esquerdismo de Brizola era, sobretudo, o nacionalismo. Integral, inviolável, o nacionalismo que, se igual nos militares com seu mito de patriotismo, os levaria a vê-lo como aliado. Odiaram-no como a nenhum outro político, nem Getúlio, nem mesmo Jango. Nacionalismo que deveria ser um ponto de aceitação de Brizola pelos comunistas. Abominaram-no como abominavam Lacerda. Mas, nesse caso, houve certa reciprocidade: a Brizola parecia intolerável a íntima relação de Jango com os comunistas, à qual atribuiu, já na época e até o fim, parcela muito grande da deterioração que antecedeu o golpe de 64. Àquela relação atribuiu, também, uma parte de sua própria radicalização no decorrer do governo de Jango, sendo a outra parte devida ao pressentimento de golpe da direita. Brizola imaginava conter o que considerava as duas ameaças.
Todo chefe político é um tanto caudilho, mas Brizola não cuidava de ao menos disfarçar esse componente, antes o exercia com evidência plena. Nas questões que tivesse como secundárias, fez política com o mesmo humor que exercia no convívio. Nas divergências que punham em questão assuntos a seu ver primordiais, foi sempre capaz de passar do gaiato ‘sapo barbudo’ ao ‘traidor’, e coisas assim, sem a menor complacência.
Mas não tinha um traço comum aos caudilhos: Brizola não era vingativo. Durante seu primeiro governo no Rio, teve que enfrentar, ou suportar, um canhoneio terrível do sistema Globo. Vinha de longe, além das divergências políticas, a inimizade de Roberto Marinho e Brizola. Ao assumir o segundo governo, Brizola encontra um fato surpreendente: o Projac, o grande centro de produção de novelas e seriados da TV Globo na Barra da Tijuca, estava em finalização, mas fora construído sem o obrigatório exame de impacto ambiental. Estava erguido em área onde o plano urbanístico proibia aquele tipo de construção e de atividade. Brizola repeliu o prato de vingança que alguns lhe mostravam, com a possibilidade de arruinar o investimento gigantesco do grupo Globo. Em vez disso, buscou um modo de legalizar o Projac.
Convencido de que a linha dura tentaria outro golpe ao fim do governo Figueiredo, Brizola chegou a propor a extensão do mandato do general. Foi dos primeiros a integrar a campanha das diretas, mas o gesto anterior ficou como cobrança inesquecível. Obcecado com problema da infância em geral e da infância pobre em particular, achou que investimentos de Collor na multiplicação de Cieps, os centros de educação integral, justificariam seu apoio a uma Presidência lamentável. O gesto ficou para cobranças que o acompanharam desde então.
Brizola nunca pediu, nem precisou fazê-lo, que esquecessem o que disse ou escreveu. Nunca traiu o que ofereceu aos eleitores como seu governo. Entre seus erros e acertos estiveram sempre a franqueza com os outros e a lealdade a si mesmo.

Brizola foi um homem sofrido de uma vida bonita."

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