FILMES & LIVROS:
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23062019 - THE INCUBUS:

Em uma pequena cidade, Roy Seeley e sua namorada Mandy Pullman estão acampando junto ao lago. Fora do azul, eles são atacados e Roy é assassinado, enquanto Mandy é violentamente estuprada. Dr. Sam Cordell está impressionado com a violência e percebe que Mandy teve o útero rompido. Depois, a bibliotecária Carolyn Davies também é violentamente estuprada e assassinada.

O tenente Drivas acredita que as mulheres foram estupradas por uma gangue enquanto Sam e Sheriff Hank Walden acreditam que apenas um homem fez. A repórter snoopy Laura Kincaid está sempre interferindo com a investigação e Sam tem um caso de amor com ela. Enquanto isso, o jovem Tim Galen, que data filha de Sam Jenny Cordell, revela que ele tem visões premonitórias das mortes, mas sua avó Agatha Galen tenta convencê-lo que ele não tem nada a ver com os assassinatos. Mas quando Jenny aprende sobre seus sonhos, ela convoca seu pai, Laura e eles descobrem um segredo sobrenatural sobre a família de Galen.

02062019 - SUSPIRIA 2018 - MUITO BOM?

Em uma das cenas iniciais de Suspiria: A Dança do Medo, remake dirigido por Luca Guadagnino, um ditado emoldurado afirma que “ninguém pode tomar o lugar” de uma mãe. Além de definir grande parte dos sentidos do longa, a afirmação pode atestar, de certo modo, que o filme de Guadagnino não quer de forma alguma tomar o lugar do clássico giallo de Dario Argento. Quaisquer comparações qualitativas entre as duas obras, portanto, não entram em questão.

Este novo Suspiria, roteirizado por David Kajganich (de A Piscina), apresenta a mesma trama original de uma perspectiva, ou melhor, perspectivas bastante frescas. Ainda há a jovem Susie Bannion (Dakota Johnson), que chega à Academia Markos para treinar sua dança, mas desta vez não acompanhamos o mistério apenas através de seus olhos. Entram na mistura um psiquiatra sobrevivente do holocausto nazista, as mulheres que administram a escola e uma força – maligna? – que se apega a Susie.

O ponto mais instigante que este Suspiria aprofunda é a disputa de poder que ocorre dentro da Academia Markos, cujo conselho é constituído de bruxas – algo que o filme deixa claro logo de início. Em um embate que divide as administradoras em dois principais lados, entre manter a bruxa anciã Markos no poder ou conceder o controle da escola para sua aprendiz Madame Blanc (Tilda Swinton), as relações de poder exercidas por elas, outsiders que habitavam o subterrâneo, ironicamente espelha as disputas políticas fora da academia.

A configuração desta batalha interna tem seu propósito reafirmado quando Kajganich cria novas e surpreendentes viradas para a história, dando sentido às sequências de sonho aparentemente aleatórias e culminando em um clímax que, além de satisfatório em sua sanguinolência e cativante na experimentação estética com tons vermelhos e baixa taxa de quadros, oferece uma recompensa lógica para quem já estava montando algumas das peças. É aqui que Suspiria se confirma, sem dúvidas, como uma releitura totalmente despreocupada com a reverência. “Negue sua mãe”, diz Markos, e isso se faz.

A atenção de Guadagnino com as regras desse mundo e sua execução por vezes não anunciada destas revela uma disposição do cineasta em brincar com o que esta mitologia lhe oferece, mesmo que custe a paciência do espectador que espera por um explícito e objetivo show de sanguinolência logo de cara. Quando uma certa dança macabra ocorre, com uma mulher que tem o corpo distorcido e cada um de seus ossos quebrados por magia, há pouco o que fazer além de encarar em choque – a repulsa se repete mais vezes mas de forma seleta, o que a torna ainda mais chocante.

A dança, aliás, é um componente vital para o funcionamento de Suspiria como uma máquina de choques viscerais. A ocasião da dança contorcida pode chocar por sua natureza gráfica e escatológica, mas essa e praticamente todas as outras danças são coreografadas e entregues com a mesma agressividade, com planos precisos de partes de corpos e o som acentuado de músculos tensionando, mãos e pés chocando-se contra superfícies diversas. Não se sabe quando ossos se quebrarão novamente. Os muitos cortes da montagem por Walter Fasano, por sua vez, criam uma aflição rítmica.

Para essa dança inquietante, então, a música de Thom Yorke é inestimável. Na ocasião mais comum, o compositor cria melodias inesperadamente belas para uma obra de tais pretensões – a canção Suspirium merecia ao menos uma indicação ao Oscar – e as envolve em uma ambiência macabra, e durante as apresentações e performances é capaz de evocar um estado de transe pela percussão precisamente compassada e uma distorção lisérgica de sons e vocais. As músicas ritualísticas formam, de fato, uma playlist provável para um ritual obscuro – e talvez um pouco hipster.

Porém nem todas as ambições de Guadagnino e Kajganich são correspondidas. A história paralela do psiquiatra Josef Klemperer (interpretado por Tilda Swinton sob maquiagem impressionante) cumpre seu propósito de manter a realidade local em voga, com sua busca conturbada pela esposa desaparecida durante a Segunda Guerra Mundial. Mas Guadagnino busca nessa trama uma emoção catártica – procurada também pela trilha – que não necessariamente atinge, embora o epílogo se dedique quase todo a fechar o arco de Klemperer.

23052019 - O MISTERIOSO CASO DE JUDITH WINSTEAD:

Produções de terror found footage têm, como objetivo principal, gastar menos e faturar mais vender "realidade". Parte desses filmes se baseiam em eventos verdadeiros, mas outros apenas alegam fatos que nunca aconteceram. Este é o caso de O Misterioso Caso de Judith Winstead, que monta um documentário sobre único caso de possessão demoníaca confirmada pelo Governo dos EUA. A grande verdade é que este caso não passa de invenção da cabeça dos roteiristas, tornando todas aquelas considerações finais irrelevantes. Essa busca pelo "realismo", ao mesmo tempo em que faz o filme se destacar, também o limita em seu desenvolvimento, tornando-se uma faca de dois gumes.

Na trama, Dr. Henry West fundou o Instituto Atticus no início de 1970 para testar indivíduos que manifestassem habilidades sobrenaturais. Apesar de testemunhar vários casos notáveis, nada poderia ter preparado o Dr. West e seus colegas para Judith Winstead. Ela superou todas os indivíduos que já haviam sido estudados – logo ganhando a atenção do Departamento de Defesa dos EUA, que posteriormente assumiu o controle do centro de pesquisa. Quantos mais experimentos eram realizados em Judith, mais claro ficava que suas habilidades eram uma manifestação das forças do mal dentro dela, levando o governo a tomar medidas para transformar essa força em uma arma. Mas eles logo descobriram que há poderes neste mundo que simplesmente não podem ser controlados. Agora, os detalhes dos eventos inexplicáveis que ocorreram dentro do Instituto Atticus estão vindo a público depois de permanecerem em sigilo por quase quarenta anos.

Ao contrário de vários filmes found footage, este de fato se parece com um documentário de verdade. Seguindo os moldes dos documentários exibidos pelo History Channel, o enredo de O Misterioso Caso de Judith Winstead cumpre bem a sua proposta de desenvolver um mockumentary, com direito a depoimentos e, principalmente, fotos e vídeos do caso do qual a história se trata. E, apesar de ser uma abordagem diferente no gênero, tratar toda a trama como um simples documentário também tem o seu preço negativo. Devido ao acesso de depoimentos no decorrer da narrativa, é difícil para o espectador se concentrar no núcleo que é realmente importante para a história: os experimentos com Judith Winstead.

Particularmente, não achei essa abordagem ruim, mas sua execução esteve longe de ser perfeita. Alguns dos atores prestando depoimentos não tiveram um bom desempenho, e essa quebra na narrativa poderia ter diminuído com o desenrolar do filme, dando a chance do diretor construir um clima de tensão – que foi impossível ser mantido devido as constantes quebras de ritmo. Esse não é um documentário verdadeiro e sequer relata uma trama baseada em uma história real, então não havia mesmo necessidade de focar tanto nas pessoas falando. O objetivo desta produção é ser um filme de terror, pelo amor de Deus. Apesar de tudo isso, eu não achei o filme realmente entediante, conseguindo manter minha atenção mesmo com todas as interrupções.

O roteiro apresenta algumas ideias interessantes, mas elas poderiam ter sido melhor desenvolvidas. Primeiro que os testes parapsicológicos com a Judith Winstead poderiam ter sido estendidos. Tivemos algumas cenas realmente legais com ela manifestando o seu "poder", e o roteiro poderia fazer uso de mais momentos como aqueles antes do Governo dos EUA se intrometer na história. Também considero essa ideia do Governo usar o "desconhecido" para ficar à frente dos seus inimigos interessante, mas, sabendo com o que estavam lidando, eles poderiam ter estudado um pouco mais a entidade sobrenatural que estava a sua frente. O enredo perdeu a oportunidade de criar excelentes diálogos entre os militares e entidade que estava possuindo a protagonista. Poderíamos ver, pela primeira vez desde O Exorcista, uma conversa franca com um demônio, e conhecer melhor suas intenções.

Tenho certeza de que nem todos irão gostar deste filme, mas eu o considero relativamente acima da média. Há diversas cenas legais – mas não exatamente originais – que garantem o entretenimento da trama. Só confesso que não gostei nada do final. Poderia ter um desfecho bem mais elaborado, mas a sensação que fica é que o roteirista estava com pressa para concluir a história que criou. Por último, acredito que a atriz Rya Kihlstedt merece um destaque no papel da protagonista, Judith Winstead. Ela se saiu muito bem no papel, conseguindo representar muito bem o que era esperado de sua personagem. É uma pena que ela não tenha tido mais tempo em tela; caso o filme focasse um pouco mais nela e menos nos depoimentos, talvez o resultado final fosse superior.

CONCORDO:

A MULHER NA JANELA:

Houve um período, por volta das décadas de 1950 a 1960, em que o suspense psicológico esteve em alta nos cinemas com produções que entraram para a história. O grande nome por trás da maioria desses filmes foi o de Alfred Hitchcock, um mestre na arte de contar e adaptar histórias. Vem dessa época obras como Psicose, Um Corpo que Cai, A Dama Oculta, entre outros. Todas originárias de livros, alguns não tão conhecidos do público brasileiro ou fora de catálogo a muitos anos. Esse estilo de contar histórias não acabou, mas é fato que o suspense psicológico perdeu muito espaço para tramas em que a figura de um detetive ou investigador protagoniza a história em sua busca pelo vilão da vez. A Mulher na Janela, lançamento da editora Arqueiro, vem, portanto, suprir essa carência com uma qualidade digna dos grandes clássicos que mencionei acima.

O ponto primordial em qualquer suspense psicológico de qualidade é sua capacidade de envolver e confundir o leitor. A obra precisa se assemelhar a um labirinto em que podemos tomar caminhos diversos, confusos e errados. Às vezes certezas são desfeitas no capítulo seguinte ou dúvidas ganham contornos maiores. O estreante A.J. Finn seguiu a receita e fez de A Mulher na Janela um livro viciante e impossível de largar. Narrada pela cativante protagonista Anna Fox, a obra é de uma leitura deliciosa e nos conduz por sua rotina diária: tomar conta da vida alheia. Presa em casa por conta de uma fobia a lugares abertos, Anna passa seus dias assistindo a filmes, bebendo e cuidando da vida dos vizinhos de forma obsessiva. Tudo isso narrado de forma ágil, com frases rápidas e descrições econômicas. Assim, o livro flui sem se arrastar em nenhum momento.

Ao traçar a rotina de vida, deixando claras as limitações de saúde e problemas com bebida da protagonista, o autor constrói o cenário para lançar a dúvida. Aquele mistério que vai perdurar até as sequencias finais sustentando duas perguntas: aconteceu algo? Se aconteceu, de quem é a culpa? Pronto. Temos em mãos uma das melhores histórias para começar o ano! A partir desse ponto cabe aos leitores a atenção necessária para ir desfazendo os nós e identificando o que pode ser verdade e o que não passa de ilusão. Existem vilões nesse livro ou tudo é apenas fruto de uma mente perturbada?

Para além dos mistérios, alguns inclusive fáceis de serem percebidos muito antes do fim, A Mulher na Janela é uma grande homenagem aos clássicos filmes de meados do século XX. Os capítulos são recheados de referências e citações a diálogos de algumas das principais obras de uma época áurea do cinema. O desenvolvimento da história acaba sendo tão bom que ficamos tentados a ir em busca de alguns títulos para assistir e fazer companhia para a protagonista (cheguei a me perguntar se determinados títulos citados serviriam de pistas para a solução do mistério, mas ainda não verifiquei). Essa aura cinematográfica acaba contaminando tão bem a obra que acho impossível aos leitores não imaginar claramente as cenas como se estivéssemos em um cinema nos tempos do preto e branco.

Os personagens secundários que dão suporte à trama cumprem à risca seu papel de “complicadores” do mistério. Todos com atitudes que mudam da confiança para a desconfiança em poucas páginas. No fundo, ninguém é o que parece e, por mais observadores que possamos ser, o desfecho passa bem longe do imaginado. Um desfecho bem clássico, sem furos e digno de comparação com as grandes obras do gênero.

Para os saudosistas de bons suspenses psicológicos, como eu, A Mulher na Janela é uma grata surpresa. A obra reúne todas as credenciais para ser um dos melhores lançamentos do ano, que está apenas começando heim! Sirva-se de um Merlot, acomode-se na poltrona e tenha excelentes papos com Anna Fox. E lembre-se, ela pode saber mais da sua vida do que você imagina!

Avaliação: 5 Estrelas

O Autor: A.J. Finn Formado em Oxford, A.J. Finn é ex-crítico literário e já escreveu para diversas publicações, incluindo Los Angeles Times, The Washington Post e The Times Literary Supplement. A Mulher Na Janela, seu primeiro romance, foi vendido para 36 países e está sendo adaptado para o cinema numa grande produção da 20th Century Fox. Natural de Nova York, Finn viveu por dez anos na Inglaterra antes de voltar para sua cidade natal, onde mora atualmente.

OBJETOS CORTANTES:

E quando seu trabalho te obriga a encarar escuridão que habita em você? Essa é a trajetória de Camille Preaker, personagem de Amy Adams em Sharp Objects. Escalada para cobrir um assassinato em sua cidade natal, a jornalista é levada a confrontar seus próprios demônios e os traumas de seu passado.

A série, traduzida pela HBO como “Objetos Cortantes”, é uma adaptação do livro homônimo de Gillian Flynn, também autora de Garota Exemplar (Gone Girl). A princípio, a ideia seria rodar a adaptação como um filme, mas Marti Noxon, roteirista de Mad Men que comandou a adaptação, conseguiu transformar o projeto em uma minissérie de 8 episódios. Segundo Noxon, a personagem precisava de mais espaço para ter sua evolução contada.

E se você ainda não está convencido de que vale a pena assistir, saiba que Sharp Objects é dirigida por Jean-Marc Vallée, responsável pela incrível Big Little Lies e o premiado filme Clube de Compras Dallas. A HBO realmente vem mostrando que não trabalha apenas com séries de primeira linha no gênero fantasia, como Game of Thrones e Westworld, mas também traz verdadeiras obras de arte atuais, como nos acertos recentemente em True Detective e mesmo Big Little Lies.

Chegamos portanto a Wind Gap, Missouri, onde se passa a trama de Sharp Objects. Ainda que de fato exista uma cidade chamada Wind Gap na Pensilvânia, a localidade criada por Gillian Flynn é totalmente fictícia. Mas não por isso, inverossímil. A cidade natal de Camille Preaker (Amy Adams) é a típica cidadezinha americana do interior onde todos se conhecem e as pessoas ficam marcadas pelos estigmas de sua infância.

A polícia de Wind Gap, ainda que bem-intencionada, é incapaz de lidar com a recente onda de assassinatos de adolescentes que já abateu duas garotas e instaurou medo e desconfiança entre seus habitantes. O xerife Bill Vickery (Matt Craven) e o detetive de Kansas City, Richard Willis (Chris Messina), são os responsáveis pelas investigações.

Enquanto as buscas avançam, Camille Preaker é designada por Frank Curry (Miguel Sandoval), editor-chefe do jornal St. Louis Chronicle, para cobrir a história, aproveitando-se de sua conexão especial com sua cidade natal e seu conhecimento das figuras pitorescas da cidade.

Camille, no entanto, reluta para aceitar o convite, pois sabe que acabará se confrontando com os demônios de seu passado em Wind Gap. Mas Frank, apesar de nutrir algum tipo de afeição paterna por Camille, não está aberto a negociações.

Antes mesmo de sua volta a Wind Gap, somos tragados pela escuridão que habita na repórter, que transparece por meio de seu alcoolismo, alucinações e comportamento de automutilação, o que chegou a levá-la à internação.

Não há dúvidas de que este papel é um presente para Amy Adams, que tem a chance de provar que está no hall de melhores atrizes da atualidade e merece ter acumulado suas cinco indicações ao Oscar. Outro nome considerado para interpretar a protagonista foi Jessica Chastain (A Hora Mais Escura).

Assim como Cora Tanetti, personagem de Jessica Biel na série The Sinner, a complexidade de Camille Preaker e sua relação com a família é um prato cheio para qualquer psicanalista. E isso é algo que Sharp Objects consegue explorar muito bem.

Em seu retorno a Wind Gap, os flashbacks da infância de Preaker, interpretados pela atriz mirim Sophia Lillis (It: a Coisa), sugerem um forte trauma ainda não revelado, mas que provavelmente irá ser desvendado ao longo da série. Até lá, vamos sendo apresentados à figura de sua mãe, Adora (Patricia Clarkson), e entendemos melhor alguns dos comportamentos de Camille Preaker.

Adora é uma socialite acostumada a uma vida de privilégios em Wind Gap. Mimada e narcisista, acha que o mundo gira em torno de si e que tudo é sempre sobre ela. Por isso considera a chegada de Camille para escrever uma matéria sobre os assassinatos na cidade uma ofensa ao nome da família, que tanto preza em defender. Rapidamente notamos o comportamento controlador e repressor de Adora com suas filhas, que parece ter se intensificado com a morte da filha de seu segundo casamento, Marian Crellin (Lulu Wilson).

Adora sempre deixou clara sua preferência por Marian, já que Camille a lembrava demais seu ex-marido.

Mas Camille tem mais uma meia-irmã, Amma Crellin (Eliza Scanlen). Por ser bem mais nova, parece ter sido uma forma de Adora lidar com a ausência de suas duas filhas anteriores, já que Marian faleceu e Camille se mudou para a “cidade grande”. Na trama de Sharp Objects, Amma tem aproximadamente a idade de Marian, quando esta faleceu.

A morte de Marian parece ter sido um divisor de águas na vida da família. Enquanto a reação de Adora parece ser uma espécie de negação, mantendo o quarto de Marian impecável e intocado, a de Camille passa a ser a de autopunição, marcando palavras em seu corpo com objetos cortantes.

Nesta nova estrutura familiar, temos uma enorme similaridade com as personagens de The Sinner, com uma mãe que introjeta culpa nas filhas, um pai ausente, uma filha tomada pela culpa e outra por impulsos imprudentes. Ou seja, um prato cheio para a psicanálise.

Ainda que esta dinâmica seja extremamente prejudicial para a psiquê de Camille, seu editor-chefe parece acreditar que ela precisa encarar os fantasmas de seu passado, o que nos faz pensar que Frank Curry talvez saiba mais do que aparenta. Curry parece atuar como uma espécie de mentor ou figura paterna para Camille, e suas constantes ligações para checar o andamento das matérias parecem disfarçar sua real intenção de acompanhar seu estado emocional.

A evolução de Camille Preaker realmente parece ser o objetivo central de Sharp Objects. Gillian Flynn revelou em entrevistas que sua intenção era escrever um estudo de personagem sobre Camille, mas por achar que ninguém se interessaria em ler um livro sobre raiva e violência, através de três gerações de mulheres, camuflou estas temáticas em meio a uma história de investigação e mistério.

Flynn brinca que esta foi a maneira de “enganar” as pessoas para que lessem sobre estes temas.

Estamos vivendo uma onda de obras incríveis lideradas por mulheres, como The Handmaid’s Tale e a já citada Big Little Lies. Sharp Objects vem nessa mesma pegada: melancólica, profunda, poética e com roteiro e atuações impecáveis.

Ainda que as duas primeiras tragam dramas essencialmente ligados ao feminino, Sharp Objects se diferencia ao trazer uma personagem forte, mas atormentada por questões existenciais, vícios e traumas do passado. Características que compõem um papel de anti-herói atormentado, geralmente reservado a protagonistas masculinos, como por exemplo Rust Cohle, personagem de Matthew McConaughey em True Detective.

Casey Bloys, diretor de programação da HBO, afirmou em entrevistas que não conseguiria pensar em uma protagonista feminina mais complicada que Camille Preaker: “existem célebres protagonistas masculinos com tendências autodestrutivas por aí, mas será realmente interessante ver uma mulher lutando contra seus demônios”.

Outro ponto interessante a ser ressaltado nessa onda de séries lideradas e focadas em mulheres é ver atrizes extremamente talentosas acima dos 35 – como Elizabeth Moss e Jessica Biel, dos 40 – como Reese Witherspoon e Amy Adams, e até dos 50 anos – como Nicole Kidman e Laura Dern – com espaço para desenvolver personagens complexas em mais tempo de tela do que um longa nos cinemas poderia oferecer.

Infelizmente (ou felizmente), Casey Bloys já afirmou que a segunda temporada de Sharp Objects não irá acontecer. Ainda que o fato da minissérie encerrar integralmente a trama do livro não queira dizer nada, considerando que Big Little Lies e The Handmaid’s Tale foram renovadas para temporadas que extrapolam seus livros, Amy Adams já declarou que não tem intenção de voltar a viver Camille Preaker, pelo processo desgastante de retratar uma personagem com questões tão pesadas.

Sorte a nossa. O formato de minissérie tem sido bem-sucedido em contar histórias que possuem um pouco mais de fôlego, mas precisam contar com um encerramento claro, dramático e bem definido.
Que oito episódios sejam suficientes para que Camille Preaker vença seus demônios.

DRACUL:

O mito vampiresco é uma constante na cultura popular desde os séculos XVIII e XIX. Em paralelo aos antigos mitos folclóricos europeus que pintavam a criatura como monstruosa, observa-se uma produção literária, entre estes séculos, povoada por seres sobrenaturais envolventes, até mesmo sensuais, mas sempre aterrorizantes. Dentre os exemplos mais conhecidos, vêm à mente “The Vampyre”, de John Polidori (um dos frutos da conhecida aposta travada entre Lord Byron, Mary Shelley, Percy Shelley e o próprio Polidori), – que traz o arquétipo do vampiro masculino elegante e irresistível – e “Carmilla”, de Sheridan Le Fanu – abarcando, por sua vez, o arquétipo da vampira lésbica lasciva e sedutora contra jovens inocentes (sobre as mulheres na literatura vampírica, recomendo esse post excelente do Fright Like a Girl).

A síntese destes retratos mais “refinados”, somados à selvageria mais crua presente nos mitos antigos, é o clássico Drácula, de 1897. Mas como apresentá-lo a uma audiência vitoriana na era da ciência, do otimismo e do progresso?

Um dos maiores méritos da obra de Bram Stoker para a literatura de terror é seu estilo: recortes de jornal, relatos perdidos e páginas de diário compõem a tapeçaria narrativa da obra. A linguagem é direta para a época, com indivíduos comuns da sociedade britânica descrevendo os acontecimentos. O medo não apenas reside naquilo que é testemunhado, mas também no que é deixado para a imaginação, quando a razão cartesiana já não é capaz de explicar o que se desvela diante dos leitores. É fácil imaginar como o livro tenha aterrorizado tanta gente, se pararmos pra pensar que filmes de terror ou horror “baseados em fatos reais” fazem bastante sucesso até hoje. Sem falar nos famosos filmes “found footage”, cuja premissa de medo reside justamente num suposto realismo documental das imagens exibidas.

Além disso, o próprio Drácula se distancia, em muito, de suas caracterizações mais recentes que o humanizam, buscam justificar seus atos ou, no mínimo, colocá-lo como uma personagem ambígua e moralmente cinzenta. Na obra original, o vampiro é a própria personificação do mal, um monstro asqueroso cujas razões desprezíveis não deixam espaço à empatia.

Em Dracul, uma espécie de prequel dos acontecimentos de “Drácula”, os autores J.D. Barker e Dacre Stoker (este último o sobrinho-bisneto do próprio Bram Stoker) propõem-se não apenas a revisitar a narrativa original, como também incorporar a própria atmosfera misteriosa que cerca a publicação da mesma. Embasando-se em manuscritos e cenas suprimidas do romance de 1897, bem como das anotações do diário de Bram, e elevando alguns acontecimentos da vida do autor, os autores estreitam as fronteiras entre realidade e ficção, inserindo-o como protagonista de uma nova história, ainda que fiel aos cânones pré-estabelecidos pelo clássico que o antecedeu.

Confesso que iniciei a narrativa com o pé atrás: esta não é a primeira empreitada de Dacre Stoker no legado literário de sua família, tendo escrito uma continuação “oficial” de Drácula denominada “Drácula, The Un-Dead” em 2009, cuja recepção não foi lá das melhores. Decidi me arriscar com Dracul, contudo.

A história é contada em pontos temporais paralelos: o primeiro deles é em 1868, do ponto de vista em terceira pessoa de um jovem Bram Stoker montando vigília no quarto de uma construção antiga, armado de uma espingarda Smith & Wesson e de relíquias sagradas como água benta, crucifixos e rosas abençoadas, para impedir a entrada de uma criatura demoníaca no aposento. Durante a longa noite que se segue, o rapaz rememora todos os eventos que o levaram até aquele momento. Este é o segundo ponto de vista da narrativa: as entradas no diário de Stoker (em primeira pessoa), primeiramente sobre a infância em Clontarf, na Irlanda, quando era apenas uma criança moribunda padecendo de um mal desconhecido, até os anos mais recentes da juventude. Há, ainda, cartas escritas por sua irmã Matilda Stoker, além de anotações no diário do irmão mais velho, Thornley. Em todos, um denominador comum: a presença da misteriosa Ellen Crone, babá na casa dos Stoker durante a infância dos irmãos. Após um evento testemunhado por Bram e Matilda ainda pequenos, a figura de Ellen não cessa de abandonar seus pensamentos. De alguma forma, a antiga cuidadora da família está interligada ao monstro que Bram necessita eliminar no presente.

Aos 22 anos, Bram já não possui mais nenhum sinal da enfermidade que o acometera na infância, trabalhando em um cargo público administrativo, paralelamente ao ofício não-remunerado de crítico de teatro; Matilda segue com uma carreira artística bem-sucedida, tendo retornado de uma exposição de suas obras em Paris; e Thornley tornou-se um dos mais prestigiados médicos da região. Diversos eventos insólitos inter relacionados reúnem o trio, mesmo anos após o desaparecimento da babá, a fim de que descubram seu paradeiro.

Mencionei logo cedo que um dos maiores méritos da obra de 1897 é o estilo quase jornalístico com o qual os acontecimentos são relatados, junto a uma escrita epistolar acessível – isto é, a transcrição das cartas que os personagens enviam uns para os outros, além das entradas em seus respectivos diários. Aqui, em Dracul, é bastante perceptível o esforço dos autores em resgatar o estilo epistolar e incorporá-lo na nova trama, algo que já representa um mérito por si só; o livro anterior de Dacre (co-escrito com o autor Ian Holt), “O Morto-Vivo”, fora muito criticado justamente pelo desrespeito ao estilo pelo emprego de uma narração rápida, quase cinematográfica. Até certo ponto, é possível dizer que o autor se redime, muito por conta da qualidade narrativa de seu atual co-autor, J.D. Barker. Em certos pontos, contudo, a narrativa em forma de diários ou cartas nem sempre parece muito natural, especialmente no início, que me pareceu um pouco arrastado.

Ainda sobre estilo, algo que não me escapou aos olhos foi a incorporação de vocabulário, frases mais elaboradas e alguns tipos de expressões que me remontam à narração melodramática dos romances góticos do século XIX, atualizada a uma audiência mais moderna. Não lembro de ler muitas histórias lançadas recentemente que tenham resgatado estes pequenos detalhes, mesmo aquelas cuja ambientação antiga possibilitasse algo do tipo. É bastante interessante, e denota a preocupação com um trabalho de pesquisa reforçado e detalhado sobre o material de origem.

Embora Bram Stoker seja o protagonista, ele não é nem de longe a personagem mais interessante do romance. Seu ponto de vista não é tão cansativo de acompanhar (salvo no início), mas não se trata de uma personalidade de grandes atrativos, sendo até um pouco genérica. Thornley também entra pelo meio, embora ganhe alguns atrativos a mais, em função do apego, beirando a obsessão, para com sua esposa enferma (o que me lembra um pouco a relação entre Lucy e seus três pretendentes, especialmente o Dr. Seward, em “Drácula”) e suas ligações com o famoso Clube do Inferno, grupo secreto de intelectuais para estudos acerca do que a ciência de então não conseguia explicar.

Matilda Stoker chama a atenção pelo sarcasmo, altivez e pulso firme para com os irmãos – de certa forma, ela é tudo aquilo que Mina Murray (noiva de Jonathan Harker em “Drácula”) poderia ter sido mas não o foi, em função de sua submissão a Van Helsing; Matilda não tem medo de tomar as rédeas da missão quando os rumos da busca não a agradam, ou de chamar a atenção de Bram e Thornley quando ambos perdem a perspectiva (embora tenha me incomodado a quantidade de “gritinhos” que ela solta ao longo da trama, como se os autores se sentissem na necessidade de nos recordar de que Matilda ainda é uma “dama frágil”). A própria Ellen Crone é intrigante de maneira bastante convincente, e seu mistério se constrói de forma cuidadosamente intrincada na narrativa. A personagem mais ambígua do livro inteiro, contudo, sem dúvida é Arminius Vambéry, membro do Clube do Inferno e amigo próximo de Thornley (e possível inspiração do Bram Stoker da vida real para a personagem de Van Helsing), por ele convocado para auxiliar na missão, em função de seus mais variados contatos escusos na sociedade britânica; até a última página, não é fácil entender exatamente quais são suas intenções.

A grande figura maléfica da trama também é muito bem desenvolvida, e aqui devo ressaltar um ponto fundamental: comentei anteriormente que as representações mais recentes buscam relativizar ou humanizar a depravação vampiresca. Devo dizer que isso não acontece em Dracul. Os autores se mantiveram bastante fiéis ao retrato da criatura tal qual Bram Stoker a concebera em seu romance, não apenas quanto ao caráter bestial e deformado do monstro (mesmo as criaturas vampirescas mais humanizadas da trama possuem seus momentos de loucura sanguinária), como também quanto às próprias convenções instituídas em “Drácula”. Aqui, vampiras e vampiros são capazes de se dissolver no ar, transformar-se em animais, e inclusive andar sob a luz do sol (embora incapazes de usar seus poderes, sendo consideravelmente mais fracos que durante a noite). Não há nenhuma incoerência, e está tudo de acordo com o romance de 1897.

O desfecho é agridoce, coerente com as personagens, sem grandes malabarismos, e mostra as consequências de uma jornada empreendida tendo a paixão como mola propulsora. Este é outro ponto positivo que eu gostaria de destacar: Dracul também é uma história de amor, mas não o amor romântico sacralizado que encontramos nas mídias. Trata-se de um amor intenso e verdadeiro, na mesma medida em que é cruel, destrutivo e sem precedentes para todos os que estão por perto. É sempre muito interessante ler histórias em que o sentimento amoroso assume formas feias e compulsivas – e inclusive é reconhecido e demonstrado nas narrativas como tal – pois, na vida real, o amor pode se tornar exatamente isso.

Ao final do livro, há algumas páginas extras em que os autores revelam um pouco sobre o processo de recuperação dos manuscritos e documentos originais, além de detalhar a influência específica de duas obras do cânone de Drácula para a prequel: o conto “Dracula’s Guest” (capítulo inicial do livro original, cortado na edição final e recuperado recentemente, já estando disponível em algumas edições nacionais mais recentes), bem como “Makt Myrkranna” (tradução islandesa de Drácula, com diferenças consideráveis do original em relação a estilo narrativo, com adição de alguns novos personagens. Sua edição brasileira será lançada em breve e inclusive já teve post por aqui sobre), ambos redescobertos em meados dos anos 1980. Tanto o conto como a tradução possuem base em escritos do próprio Bram Stoker, gerando diversas especulações quanto à mensagem que o autor desejava passar com a obra. Personagens como a Condessa Dolingen von Gratz (presente em “Dracul”) possuem suas primeiras aparições nestes originais, e é muito intrigante a atmosfera de mistério que os autores colocam em torno dos documentos recuperados.

No geral, “Dracul” se revela uma prequel bastante competente ao legado deixado por “Drácula”. Embora a narrativa possa se arrastar e cansar em alguns momentos, o trabalho dos autores compõe uma trama envolvente na qual as fronteiras entre ficção e realidade nem sempre são determináveis, fiel ao lore e à mitologia construída há mais de 120 anos, além de trazer uma mensagem surpreendentemente realista acerca das consequências de uma jura de amor verdadeiro levada a seu mais sangrento extremo.

DRACULA O MORTO-VIVO:

Passeando por uma livraria, sem qualquer intenção de realmente comprar alguma coisa, percebi que havia perto de mim um livro de capa preta com letras garrafais vermelhas na capa. Drácula o Morto-Vivo. O título imediatamente me pareceu tão interessante quanto um pesadelo. Revisitar, reescrever ou refazer a história original de Bram Stoker aparentava ser um pecado. Além disso provavelmente era um livro encomendado, escrito por algum escritor-fantasma a pedido de editores. Mas as letras brancas na parte de baixo da capa, que estampava um morcego sob uma luz fraca, diziam: A sequencia do clássico de Bram Stoker. Era o que eu temia! Talvez fosse até pior do que o Sherlock Holmes que se vê arrastado por diferentes escritores atuais, como se roubado de Conan Doyle. Um nome acima do título me fez recuar perplexo: um dos autores era Dacre Stoker. Pensei se seria realmente um descendente de Bram Stoker, o irlandês que escrevera o clássico no século XIX. Foi quase um alívio ler que Dacre é sobrinho-bisneto de Bram. Isso tornaria a obra menos forçada – para mim -, como se os personagens pudessem ter sido herdados.

Drácula o Morto-Vivo é na verdade uma tentativa de redenção. Tanto da família Stoker quanto do personagem título. A história se passa vinte e cinco anos após o livro original. Com esse tempo, os personagens puderam ser moldados com mais facilidade pelos autores, Dacre Stoker e Ian Holt, o que dava a eles mais liberdade na escrita.

A história começa com uma carta de Mina Harker ao filho, Quincey Harker, explicando – e resumindo – os acontecimentos em Drácula. Após isso acompanhamos o Dr. Jack Seward, que se tornara um caçador de vampiros viciado em morfina. Ele está engajado em caçar uma vampira nobre na Espanha: Elizabeth Bathory. Essa condessa é uma referência à verdadeira condessa húngara Bathory, cujo nome entrou para a história por ter tomado banhos no sangue de camponesas acreditando ser esse o elixir da juventude. A personagem do livro não é diferente e as descrições de seus atos, pareadas aos relatos de seu homossexualismo explícito, torna-a mais próxima do conceito de vampiro entregue aos prazeres carnais. Ao mesmo tempo vemos a situação de Quincey Harker, estudante de direito na França mas infeliz com a profissão. Ele sonha ser ator, apesar da desaprovação do pai. Jonathan Harker é um velho, gordo, alcoólatra e desiludido advogado. Ele busca afogar suas mágoas em álcool, brigas e mulheres. Harker não suporta o fato de ter sido traído por Mina, que até então parece nutrir sentimentos ambíguos por Drácula, chamando-o durante sonhos. Wilhellmina não envelhecera nos vinte e cinco anos, fato que assusta o marido lembrando-o constantemente de como Drácula interferiu em suas vidas. Já Arthur Holmwood se tornou recluso, tendo engajado em um casamento por motivos políticos. Ele se arrepende amargamente da morte de Lucy e culpa o professor Van Helsing pelo que aconteceu. O professor, por sua vez, está com a saude frágil, mas isso não o impediu de ter feito de Seward seu aprendiz nas artes ocultistas.

A partir desse cenário, temos o estranho assassinato de Seward, o que leva o grupo de antigos amigos a duvidar da morte de Drácula na Transilvânia. Adicionaram-se ainda outros personagens a essa atmosfera de medo. O inspetor Cotford, que trabalhara no caso de Jack Estripador, acredita ter sido Van Helsing o assassino em série. Há ainda Basarab, um ator romeno que nutre pelo príncipe Drácula grande admiração. Com o passar da história os autores conseguem fazer com que mudemos de opinião sobre o fim do livro de Stoker. Às vezes vemos pela narração, em terceira pessoa, que é impossível ao vampiro ter sobrevivido. No capítulo seguinte, porém, passamos a crer assim como os personagens, que ele não poderia estar morto e assim por diante. As peças do quebra-cabeças só mostram no final o que realmente aconteceu, quando vemos quem estava errado e quem estava certo, quem estava aliado a quem e quem não é aliado de ninguém.

Hum... Essa história está meio diferente de como eu me lembrava...
Hum… Essa história está meio diferente de como eu me lembrava…

A forma como a trama é conduzida, explicando o passado dos personagens, seus medos mais profundos e seus raciocínios, é excelente. Em alguns momentos acompanhamos Cotford, após ter descoberto o diário de Jack Seward, em sua investigação sobre Van Helsing e sobre o grupo de amigos. Em outros momentos acompanhamos o próprio Bram Stoker, feito em personagem, que escrevera um livro chamado Drácula a partir de uma história que ouviu de um homem em um pub em troca de bebida. O livro aborda ainda muitas das lendas sobre vampiros que foram criadas pelo cinema. Nenhuma delas sobre eles brilharem.

Vários dos personagens e eventos são históricos ou baseados em fatos e pessoas. Exemplo é a quantidade de nomes em homenagem a atores que interpretaram Drácula no cinema e no Teatro, bem como os integrantes da família Stoker e uma referência no final ao Titanic. Todos as datas foram calculadas para coincidir com os avanços da ciência, a modernização da Inglaterra, os fatos e as pessoas que lá viveram. O livro é fruto de extensa pesquisa, embora para isso a dupla de autores teve de colocar o livro de Stoker baseado na história que ele ouviu, mas alterado em relação ao que conhecemos. Algumas datas do livro Drácula foram modificadas, bem como algumas referências comuns. Uma delas é a diferença no livro entre Conde e Príncipe Drácula. No romance de Stoker ele é um conde, mas o personagem histórico, Vlad Tepes III, foi um príncipe. Em Drácula o Morto-Vivo mostra-se que Stoker alterou as informações em seu livro, mas como se, na “vida real”, o conde fosse o príncipe.

O livro é engenhoso e os autores foram meticulosos na escolha dos personagens e na ambientação, porém peca em alguns momentos. A desconstrução dos personagens em alguns pontos é como uma facada nas costas, como se não fosse o mesmo personagem da trama vitoriana. Vemos os heróis, antes determinados e confiantes, com suas vidas pessoais e profissionais em ruínas. É de sentir pena. A ideia de um romance entre Drácula e Mina é explorada pois o romance de Stoker fora ambíguo quanto a essa possibilidade e aproveita essa oportunidade para questionar tanto os valores da época vitoriana como para denotar os traumas sexuais do casal Harker. No final do livro há ainda uma nota sobre a redenção dos Stoker, pois após perder os direitos autorais sobre a obra, devido a uma questão aparentemente burocrática, a família não tentou dar continuidade a obra ou algo assim. Dacre vê isso como uma questão de honra. É interessante também que Ian Holt, co-autor do livro, contribuiu para a pesquisa por trás do filme Bram Stoker’s Drácula (1992). Há ainda uma explicação dos autores sobre a possibilidade de vampiros serem pessoas que contraíram um “vírus-vampiro”, terem alergia a alho, e outros detalhes que prefiro ignorar. Assim como as Midi-chlorians de Star Wars, foi boa a intenção. Mas só a intenção.

Em resumo o livro se assemelha muito, nas palavras de um amigo meu, a um filme de ação. As reviravoltas na trama são gigantescas e às vezes imprevisíveis. O fato de negar boa parte do livro Drácula pode incomodar também, tal como uma água benta na pele de um vampiro, mas ao mesmo tempo oferece uma nova visão sobre o romance original. É quase como se houvesse uma perspectiva imparcial na narração que diz aos diários e cartas dos heróis que eles foram muito subjetivos. Vale a pena ser lido mais pelo apoio a família Stoker e pelo intenso desenrolar da trama do que pelo final no alvorecer de Whitby.

A CASA DO MEDO : INCIDENTE EM GHOSTLAND:

 

O gênero terror me fascina desde pequeno e isso não é novidade pra quem convive comigo. Mas claro que há muitas produções ruins e também há várias que assisto por educação, mesmo sabendo que não apresentam alguma novidade. Mas 2018 parece ser um ano atípico. Claro que ainda dá pra contar nos dedos as melhores obras assustadoras que já foram lançadas até o momento. Depois de Hereditário, precisamos dar atenção para “A Casa do Medo: Incidente em Ghostland”.

O longa do até pouco conhecido Pascal Laugier conta a história de uma mãe que herda uma casa de sua tia e decide mudar para lá com suas duas filhas. Pela infelicidade da família, já na primeira noite na nova residência elas são atacas por invasores violentos.

Violento, caótico e perturbador. “A Casa do Medo: Incidente em Ghostland” é pra quem tem estômago e psicológico bom para ver uma hora e meia de muito susto e reviravolta. O que mais me chamou a atenção nesse filme é o enredo, pode até estarem presentes alguns clichês, mas não perde fôlego durante a trama. Laugier, que também assina o roteiro, mostra que o gênero terror ainda tem muito que mostrar, ainda há como fazer ótimas histórias sem cair na mesmice.

“A Casa do Medo: Incidente em Ghostland” é uma mistura de “A Casa de Cera” (2005), de Jaurne Collet Serra, com “Violência Gratuita” (1997), de Michael Hankeke. É o filme do subgênero slasher que estava faltando neste ano. E ainda é aquele tipo de filme para ser revisto várias e várias vezes.

Se você ainda quer se familiarizar com as obras de Pascal Laugier, sugiro que veja “Mártires” (2008) primeiro. De preferência com alguém, claro. Neste longa, podemos ver as técnicas de roteirização e de direção de Laugier, a sua habilidade por reviravoltas, o suspense e a sensação de inquietude.

A JUSTICEIRA - 2018:

A singela conversa entre mãe e filha, típica do ensinamento sobre o convívio em sociedade com base no respeito ao outro, é apresentada logo no inicio de A Justiceira para, de imediato, destacar o contraste entre o que Jennifer Garner era e no que se torna neste filme. Tamanha transformação é o foco central deste novo filme dirigido por Pierre Morel, nem tanto pelo peso psicológico mas, especialmente, pela possibilidade de intensas cenas de ação com sua protagonista. Isso, o filme cumpre bem.

A bem da verdade, a história de A Justiceira é pra lá de batida! Não só remete a diversos filmes de vingança estrelados por Charles Bronson como, mesmo em sua contraparte feminina, lembra bastante Valente, filme de ação estrelado por Jodie Foster lançado 11 anos atrás. Em ambos, uma mulher leva uma vida feliz até ser golpeada com um trauma brutal: em Valente, a morte do noivo e em A Justiceira, o assassinato de marido e filha. O suficiente para que, recuperadas fisicamente, ambas decidam assumir o posto de vigilante, em busca de justiça.

Ambos os casos trabalham com a proposta da falência do sistema judiciário, com suas brechas de escape aos réus e mesmo a propina descarada, a juizes e advogados. È apenas por não ter a quem recorrer legalmente que tanto Foster quanto Garner assumem tal tarefa com as próprias mãos, em um viés psicologicamente compreensivo mas socialmente perigoso devido à defesa do "olho por olho, dente por dente". A diferença é que, em A Justiceira, o foco vai mais para as cenas de ação, muito graças à especialidade de seu diretor.

Com o primeiro Busca Implacável no currículo, Pierre Morel sabe bem como conduzir cenas de ação mais cruas, que explorem a brutalidade e a violência. Soma-se a isto uma Jennifer Garner decidida a relembrar seus tempos de Alias, em um papel que lhe exige bastante fisicamente. Com uma personagem unidimensional em mãos, a atriz se entrega ao trazer uma personagem vigorosa em relação ao que se propõe, mas apenas isto. Na verdade, o filme como um todo se resume à execução de tal vingança, de forma rasa e burocrática. Nem mesmo as subtramas apontadas - a corrupção na política, o suposto interesse amoroso, os excluídos que se tornam protegidos - são desenvolvidos pela narrativa.

Um aspecto interessante que A Justiceira aborda - de leve - é a questão da repercussão de seus atos através das redes sociais. Tamanho apoio reflete não só o descontentamento com o status quo mas, também, a defesa escancarada da filosofia do "bandido bom é bandido morto", muito devido à falência do sistema como um todo. Além disso, vale ressaltar como a existência de tal tecnologia é inserida na narrativa, de forma a auxiliar a protagonista em sua busca por justiça vingativa.

Sem muita inspiração, A Justiceira é um filme até competente nas cenas de ação, mas sem ter muito a dizer além disto. Mesmo para Pierre Morel, especialista do gênero, trata-se de um subproduto do que já entregou anteriormente, como o ótimo Dupla Implacável. Apenas regular.

MILLENNIUM: A GAROTA NA TEIA DE ARANHA:

O longo da história recente da literatura, dezenas de bastiões, verdadeiros representantes de nichos consolidados, foram revisitados após a morte de seus autores. Por praticidade, a literatura policial demonstrou ser o gênero mais prolífico no que tange à adaptação/continuação de sagas, séries e legados de autores. Sherlock Holmes, James Bond, Sydney Sheldon. Todos foram às prateleiras em obras de caráter duvidoso e ajudaram a botar uma grana no bolso das editoras.

Com isso em mente, era mais que natural o receio do mundo literário quando os herdeiros de Stieg Larsson anunciaram que o autor David Lagergrantz, repórter que escrevera a biografia de Ibrahimovic, daria continuidade aos personagens Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist.

Larsson, o sueco criador da trilogia Millennium, foi vítima de um infarto fulminante antes que seus livros chegassem às livrarias – portanto não teve como testemunhar o sucesso avassalador da dupla: a trilogia vendeu 80 milhões de exemplares ao redor do globo e o primeiro volume, Os homens que não amavam as mulheres, foi justamente eleito melhor romance policial dos últimos dez anos. Carregada de feminismo, tecnologia, violência e um retrato brutalista da pacata Suécia, as prosa de Larsson atingiu em cheio todo um nicho refém das mesmas técnicas batidas de sempre, que convenciam ao requentar fórmulas batidas de um gênero idoso.

A missão de Lagercrantz, adianto desde já, foi cumprida com sucesso: copiando o estilo e a construção dos livros, ele conseguiu manter vivo o espírito de Larsson e construir uma trama intrincadíssima sem cair na maioria dos clichés. Mas eu disse maioria. Como tratava-se de um livro para comemorar o aniversário de dez anos do lançamento da trilogia, nada melhor do que homenagear a matéria-prima, certo? O problema é que Lagercrantz homenageia demais, deixando algumas coisas meio que sem sentido. O retorno dos agentes da Säpo – a polícia secreta sueca –, queridinhos dos leitores, me pareceu um tanto quanto forçado, ainda que renda boas cenas de ação e humanidade, principalmente na figura de Jan Bublanski, um policial judeu desacreditado com a vida e a existência de Deus.

Mesclando vários pontos de vista, assim como na trilogia, David oferece nesse “Aquilo Que Não Mata” – título sueco, extraído de uma frase de Nietzsche – um retorno aos dois últimos livros. Não só trazendo os policiais de volta, mas também toda a mitologia de Zalachenko e o passado de Lisbeth – muito bem recriado, deixando margem para algumas interpretações –, Lagercrantz foi feliz na escolha da trama principal: um cientista em perigo acaba recorrendo a Mikael; enquanto isso, um hacker invade a rede interna da NSA, a mesma denunciada por Edward Snowden. Conforme as páginas avançam, os fatos se cruzam numa cadeia cada vez mais intrincada onde as informações vão sendo despejadas em doses homeopáticas, como num filme de suspense – assassinos, União Soviética, autistas, espionagem industrial e personagens riquíssimos: está tudo lá.

(Em alguns pontos da narrativa fica difícil crer nas soluções apresentadas pelo autor, e para o grande público, eu diria, compreender o significado de termos cibernéticos e matemáticos será uma grande batalha. Os diálogos também parecem forçados aqui e ali, mereciam uma edição mais rigorosa).

Mas vamos ao que interessa:

Lisbeth e Mikael. Se o segundo aparece amargurado e distante do homem pragmático e objetivo que sempre foi – é o único personagem para quem o tempo parece ter passado; sério, todos os outros parecem ter ficado presos em 2003 –, a hacker favorita da literatura mundial retorna em grande estilo. Aparecendo pouco, como sempre, Lisbeth é providencial – e praticamente divina – quando tem de ser. Talvez falte um pouco de agressividade e cenas das tradicionais torturas físicas e psicológicas que seus inimigos costumam sofrer, mas o leitor fiel não vai se incomodar muito com isso.

O grande problema no arco de Lisbeth é a forma como ela se conecta com toda a história: pode ser que tenha sido uma decisão arriscada demais por parte do autor, e não vou desfilar argumentos aqui para não dar o inevitável e temido spoiler, inserir certos elementos do passado de Lisbeth como motor das 465 páginas desse romance. No esforço de se manter autoral, emular Stieg Larsson e agradar os fãs, David Lagercrantz fez um verdadeiro tour de force. Errando bastante, com certeza, mas acertando em cheio na nostalgia & diversão, A Garota Na Teia De Aranha é um ótimo entretenimento e deixa margem para continuações num final um tanto quanto decepcionante. O sueco já declarou que pretende escrever mais um ou dois livros, e depois cair fora. Não quer ser Stieg Larsson para sempre. De qualquer forma, é fato que, com Lagercrantz ou não, Lisbeth e Mikael voltarão.

SINOPSE – Uma muralha virtual impenetrável: é assim que se pode definir a rede da NSA, a temida agência de segurança americana. Quando a mensagem Você foi invadido piscou na tela de Ed Needham, responsável pelos computadores que guardam alguns dos maiores segredos do mundo, ele custou a acreditar. A tentativa de localizar o criminoso também não trazia frutos, as pistas não levavam a lugar nenhum, cada indício terminava num beco sem saída. Que hacker seria capaz de algo assim?

O BONECO DE NEVE:

Tão assustador e eletrizante quanto o silêncio dos inocentes.
Considerado seu livro mais ambicioso pelo jornal inglês The Guardian e comparado a Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris, pelo The Times, Boneco de neve é o seu livro mais arrepiante.
No dia da primeira neve do ano, na fria cidade de Oslo, o inspetor Harry Hole se depara com um psicopata cruel, que cria suas próprias regras; O terror se espalha pela cidade, pois um boneco de neve no jardim pode ser um aviso de que haverá uma próxima vítima. No caso mais desafiador da sua carreira, Hole se envolve em uma trama complexa e mortal, com final surpreendente.
O livro que transformou Jo Nesbo no maior nome do thriller nórdico na Europa.
20 milhões de livros vendidos no mundo.


OUTSIDER:

Um crime indescritível. Uma investigação perturbadoras de Stephen King dos últimos tempos.O corpo de um menino de onze anos é encontrado abandonado. Uma das histórias mo no parque de Flint City, brutalmente assassinado. Testemunhas e impressões digitais apontam o criminoso como uma das figuras mais conhecidas da cidade — Terry Maitland, treinador da Liga Infantil de beisebol, professor de inglês, casado e pai de duas filhas. O detetive Ralph Anderson não hesita em ordenar uma prisão rápida e bastante pública, fazendo com que em pouco tempo toda a cidade saiba que o Treinador T é o principal suspeito do crime. Maitland tem um álibi, mas Anderson e o promotor público logo têm amostras de DNA para corroborar a acusação. O caso parece resolvido. Mas conforme a investigação se desenrola, a história se transforma em uma montanha-russa, cheia de tensão e suspense. Terry Maitland parece ser uma boa pessoa, mas será que isso não passa de uma máscara? A aterrorizante resposta é o que faz desta uma das histórias mais perturbadoras de Stephen King."Uma história envolvente que mexe com todos os nossos medos... Para os fãs dos livros antigos de King, como It: a Coisa."

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