IMAGEM DO BRASIL VERDADE:


‘Decretei minha morte no dia da minha prisão’, diz bilhete deixado por Luiz Carlos Cancellier de Olivo; entidades como a OAB e políticos veem abuso na ação.

07102017 - VELÓRIO DO REITOR LUIS CARLOS CANCELLIER OLIVO NA UFSC:

O suicídio do reitor afastado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier de Olivo, 60 anos, na segunda-feira, ampliou a polêmica em torno das práticas adotadas em operações contra a corrupção. Entidades do mundo jurídico e acadêmico, além de políticos, criticaram a prática do Ministério Público Federal e da Polícia Federal de pedir a prisão de suspeitos com base em indícios de crimes.

Na esteira do debate, que se proliferou pelas redes sociais, políticos investigados na Operação Lava Jato , como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), aproveitaram o momento para defender a imposição de limites na atuação tanto de policiais federais quanto do MPF e do Poder Judiciário.

Cancellier morreu ao se jogar das escadas do sétimo andar do Beiramar Shopping, em Florianópolis. O reitor trazia nos bolsos a sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH) – pela qual foi identificado – e um bilhete, segundo a assessoria da Polícia Civil. “Eu decretei a minha morte no dia da minha prisão pela Polícia Federal”, dizia um trecho da mensagem. A carta foi enviada para a perícia para determinar se Cancellier realmente foi o autor do texto.

Na segunda-feira, após a confirmação da morte de Cancellier, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) criticou fatores que teriam levado à morte do reitor, como a “atuação desmedida do aparato estatal”, as “práticas de um estado policial” e a destruição da honra das pessoas “em nome de um moralismo espetacular”.

“É inaceitável que pessoas investidas de responsabilidades públicas de enorme repercussão social tenham sua honra destroçada em razão da atuação desmedida do aparato estatal”, disse a nota. “É inadmissível que o país continue tolerando práticas de um estado policial, em que os direitos mais fundamentais dos cidadãos são postos de lado em nome de um moralismo espetacular.”

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Santa Catarina afirmou, em nota, que é “chegada a hora de a sociedade brasileira e da comunidade jurídica debaterem seriamente a forma espetacular e midiática como são realizadas as prisões provisórias no Brasil, antes sequer da ouvida dos envolvidos, que dirá sua defesa”.

O comunicado da OAB estadual foi assinado pelo seu presidente, Paulo Marcondes Brincas, que deu aulas para Cancellier na UFSC. “Reputações construídas duramente, ao longo de anos de trabalho e sacrifícios, podem ser completamente destruídas numa única manchete de jornal. Para pessoas inocentes, o prejuízo é irreparável. Cabe-lhes a vergonha, a dor e o sentimento de injustiça. O peso destes sentimentos pode ser insuportável.”

O Conselho Federal e o Colégio de Presidentes da OAB seguiram a posição do braço catarinense da instituição. A entidade diz que a acusação contra Cancellier foi “não ter dado sequência ao processo administrativo de apuração” de casos de corrupção ocorridos antes de ele assumir a reitoria da UFSC, nos quais não teve nenhuma participação. “Mesmo assim, [Cancellier] foi preso provisoriamente, impedido de ingressar na universidade e teve sua imagem brutalmente exposta.”

“Não nos peçam o linchamento. Queremos a apuração de todos os fatos e de todas as acusações. Mas conclamamos a todos a dizer não ao culto ao autoritarismo e ao processo penal como instrumento de vingança. Apurar e punir, sim. Violar o devido processo legal, a dignidade da pessoa humana e a presunção de inocência, nunca”, disse o Conselho Federal da OAB.

O procurador-geral de Santa Catarina, João dos Passos Martins Neto, disse que é necessária a apuração das responsabilidades civis, criminais e administrativas das autoridades policiais e judiciárias envolvidas na prisão do reitor. “As informações disponíveis indicam que Cancellier padeceu sob o abuso de autoridade, seja em relação ao decreto de prisão temporária contra si expedido, seja em relação à imposição de afastamento do exercício do mandato, causas eficientes do dano psicológico que o levaram a tirar a própria vida.”

Martins Neto disse esperar que o legado de Cancellier seja o “de ter exposto ao país a perversidade de um sistema de Justiça criminal sedento de luz e fama, especializado em antecipar penas e martirizar inocentes, sob o falso pretexto de garantir a eficácia de suas investigações”.

O caso

A prisão temporária (com validade de cinco dias) do reitor, decretada pela juíza substituta da 1ª Vara Federal de Florianópolis, Janaina Cassol Machado, foi cumprida pela PF em 14 de setembro. A magistrada também afastou Cancellier de suas funções.

Em ofício, a juíza diz que Cancellier “deliberadamente envidou esforços para barrar as investigações” referentes à Operação Ouvidos Moucos, que apura um esquema de corrupção que teria desviado bolsas e verbas no valor de 80 milhões de reais de cursos de Educação a Distância (EaD) do Programa Universidade Aberta (UAB). Solto no dia seguinte à prisão, Cancellier, que era reitor desde maio de 2016, negou ao jornal Diário Catarinense, que tivesse tomado atitudes para obstruir as investigações.

“De forma peremptória, devo negar qualquer atitude que leve à obstrução da denúncia feita em relação à universidade. Nunca foi do feitio da reitoria e muito menos de nossa gestão a hipótese de obstruir investigação na universidade, que está submetida a uma série de controles da Controladoria-Geral da União (CGU), da Advocacia-Geral da União (AGU), Ministério Público, Conselho de Curadores, Conselho Universitário e uma série de outros órgãos”, disse o reitor.

Ele negou que sabia da existência de irregularidades. “Em um programa como esse da UAB, que vem sendo executado há mais de oito anos, sendo considerado excelência em ensino pela Capes, não haveria como a administração central obstruir qualquer investigação. Na atual gestão, procuramos sempre manter um clima de diálogo, de harmonia, reduzir as tensões, de desarmar os espíritos, de defesa da legalidade”, afirmou.

Velório

O corpo de Cancellier foi velado na segunda-feira, na UFSC. Segundo nota da universidade, o caixão foi recebido com uma salva de palmas de estudantes, técnicos-administrativos, docentes, amigos, familiares e autoridades, que formaram um corredor até a entrada principal do prédio da reitoria. “Impedido de entrar na universidade em decorrência da Operação Ouvidos Moucos, da Polícia Federal, a escolha por realizar o velório na instituição foi simbólica”, disse a universidade.

“O caixão chega pela porta da frente, que é o lugar por onde ele entrou nessa instituição como reitor. É justo que, nesse ato de despedida e homenagem, ele retorne pela porta da frente”, disse Áureo Moraes, chefe de gabinete, ao discursar no velório.

Políticos vão no embalo

A morte de Cancellier também repercutiu entre políticos investigados na Operação Lava Jato. O ex-presidente Lula, condenado a nove anos e seis meses de cadeia pelo juiz federal Sergio Moro, afirmou que o reitor foi exposto “sem nenhum motivo justificável, apenas para a sanha das manchetes sensacionalistas e a sede da destruição de reputações”. “Cancellier deveria ter retornado em vida para exercer suas atividades na universidade da qual era reitor e da qual foi afastado em medida que desrespeitou a autonomia universitária e que não deveria ter lugar no estado democrático”, disse Lula.

Outros petistas tiveram discurso semelhante. Os deputados federais Maria do Rosário (RS) e Paulo Teixeira (SP) repercutiram a manifestação do procurador-geral Martins Neto, enquanto o deputado Wadih Damous (RJ) divulgou vídeo em que defende a revisão do instituto da delação premiada.

Defesa

A reportagem tentou ouvir a juíza federal que autorizou a prisão sobre as críticas, mas a assessoria da Justiça Federal de Santa Catarina disse que ela não iria se pronunciar. A PF também foi procurada, mas não respondeu.

10072017 - ABOMINÁVEL SOCIEDADE - POR FERNANDO HORTA:
seg, 10/07/2017 - 07:49

Em junho de 2001, o Jornal Nacional veiculava uma série de reportagens que viria a ser premiada. Marcelo Canellas e Lucio Alves apresentavam a “Fome no Brasil”. O dado revelado era que uma criança morria de fome no Brasil a cada cinco minutos. Em pleno “milagre neoliberal”, como gostam de citar alguns intelectuais e políticos de direita no Brasil, uma criança morria a cada cinco minutos no Brasil. Vou repetir, porque penso que o número deveria ser usado em qualquer discussão sobre política e economia de agora em diante. Ao começar a ouvir qualquer argumento dos defensores desta hipocrisia de direita, pare e escreva “em 2001, aos sete anos do governo FHC, uma criança morria de fome a cada cinco minutos no Brasil”. Repita ou escreva, não importa, mas sempre comece por esta informação. Em seguida, olhe a ginástica retórica que o interlocutor fará e avalie se ela se encontra no campo da ignorância ou da mácula moral insanável. Qualquer das duas opções, é uma conversa que não vale à pena.

Não sei se já mencionei, mas em 2001, uma criança morria de fome a cada cinco minutos no Brasil. O fato, chocante, inaceitável, inumano, é irrisório perto da pergunta de um pai, quando confrontado pelo jornalista se não havia como o seu filho “ganhar um pouco mais de peso”. Ana Cláudia dos Santos, a mãe, e Evangelista dos Santos, o pai, com a sabedoria de quem luta para sobreviver, respondem ao repórter “o que você acha que eu devia fazer?” Este diálogo reflete o Brasil do neoliberalismo. O repórter, obviamente não sabia sobre o que perguntava e não conseguia compreender o que via e ouvia. Provavelmente foi dilacerado a cada entrevista, eis que humano. O pai entrevistado, sequer com tempo de tirar a enxada das costas para falar, desfere a pergunta fatídica que separava os brasis de forma tão evidente. “O que você acha que eu deveria fazer?” para salvar a vida da minha filha que não tem o que comer ...

Eu me recordo de assistir esta reportagem e chorar, copiosamente. Eu não choro com hino, bandeira ou camiseta verde amarela. Não choro por cântico religioso fervoroso. Não choro por ver alguém “atingir a meta” de malhar todo dia e perder peso. Não sou de reconhecer heróis em ações ordinárias e totalmente comuns. Eu chorei como criança vendo aquela série. O olhar de Evangelista para o repórter era a demonstração de que nada, absolutamente nada naquele país, poderia estar dando certo.

O que não consigo entender é como Ana Cláudia dos Santos, a mãe, e Evangelista dos Santos, o pai, se tornaram “vagabundos que se aproveitam do Estado para não trabalhar”. Ou ainda como a fome de sua filha poderia ser um reflexo “da meritocracia” que levaria – em um livre mercado – a sociedade brasileira a ser produtiva e rica. Não entendo como Ana Cláudia e Evangelista se tornaram o “problema das contas públicas do Brasil”, tendo contra si os dedos da classe média (saciada) e da maioria dos que apertam botões no parlamento, e que hoje defendem o fim dos programas sociais, dos direitos do trabalho e a redução de vencimentos para os mais pobres.

Apenas uma sociedade doente, ignorante e hipócrita pode acreditar que Ana Cláudia e Evangelista estão sofrendo assim por que não se esforçaram o suficiente. Apenas uma sociedade lunática, cínica e monstruosa pode se convencer de que eles sofrem desta forma por não terem fé suficiente ou por não terem depositado algum valor numa conta em nome de algum deus.

E eu não falei ainda da sua bebê, que padece da fome.

Certamente quando ela crescer, depois de ter lutado para sobreviver, vai saber evitar as mazelas da sociedade. Vai se esforçar numa escola pública de algum sertão poeirento e seco e vai concorrer “de igual para igual” com alguém que comeu na infância toda e que “não aceita privilégio” de quem quer que seja.

Também não falei de você, que se “revoltou” com o conto das “pedaladas” e saiu a bater panelas vazias – de barriga cheia – querendo o “seu país de volta”. Pois a ONU informa que a fome voltou ao Brasil. O seu país, finalmente, voltou. E se você a ele reivindicar as cores verde e amarela, fique com elas. Não me farão falta as cores de um país em que uma criança morria a cada cinco minutos de fome. Um país hipócrita que não aceita vidraça quebrada, mas nunca se importou com as muitas Anas Cláudias e Evangelistas a enterrarem seus filhos em caixas de sapato, como “querubins sem pecado”, no único consolo possível.

Que bom que as cores nos diferem. Você fica com a hipocrisia em verde amarelo e eu procuro qualquer outra que dê guarida a um país sem fome. Quem nos olhar saberá de pronto que não me misturo com quem prefere o cassetete à cabeça do estudante, quem prefere o privilégio da gravata à comida da criança, quem tem força física para bater em panela, mas padece de inanição moral.

Não sei se já falei, mas em 2001, aos sete anos do governo de FHC, uma criança morria a cada cinco minutos de fome, no Brasil.

Este país voltou ...

De fome ...

                                                                                                                              

03082016 - DO QUE É FEITO O BRASIL?
POR FERNANDO HORTA

Não, a destituição de Dilma Rousseff não nos incomoda. Precisamos falar sério. Dilma não era líder de massas, não tinha história na política. Era uma burocrata alçada à presidência por um processo de impressionante transferência de votos que vieram de Lula. Dilma não fazia um bom governo, pendia irregularmente entre um trabalhismo conservador pontificado por um neoliberalismo (mal) disfarçado e um discurso garantista à la “onda rosa” europeia dos anos 70 e 80. Dilma não tem o dom da retórica. Tem história, mas não sabia usá-la. Seu maior discurso, até então, era uma resposta ao senador Agripino Maia dada ainda quando ministra da casa civil, entre 2005 e 2007. Rousseff se embananava na imensa maioria de suas falas e pouco conseguia instilar e inspirar na sua audiência. Como um “poste” se transformou na “coração valente”? Como se deu este milagre sabendo-se que sua assessoria de comunicação era a parte mais ignóbil e incapaz de todo seu staff (com folga)?

Em primeiro lugar, é preciso recordar que o processo de interpretação da realidade é sempre subjetivo. Falando mais abertamente, quem interpreta as coisas vê nelas o que quer ver ou o que consegue ver. O “coração valente”, portanto, está em quem olha, assim como está a “vaca” ou o “poste”. A trajetória de Dilma é pródiga em atos de coragem, mas isto pouca coisa significou até os últimos 60 dias. O que catapultou Dilma a condição que tem hoje foi a percepção da diferença entre ela e o Brasil. O contraste que nos foi oferecido durante o processo de impeachment é tão violento que não interessa quem foi (ou é) Dilma Rousseff, interessa entender do que é feito o Brasil.

Ainda incrédulos com o espetáculo dantesco nos oferecido pela Câmara dos deputados em 17/04 nós brasileiros, de direita, de centro e de esquerda nos horrorizamos com o que vimos. Brasileiros com cérebro custaram a acreditar que aquilo ali era uma parte substancial de nossa elite política. E a Câmara ficou órfã. Ninguém queria assumir a paternidade daquele horrendo monstro. A esquerda culpava a direita, a direita culpava a “ignorância” do povo, o povo … enfim o povo não entendia o que acontecia, mas sabia que aquilo era uma “luta entre ricos” e, portanto, também negava a paternidade. Os “deputados de ninguém”, aquele conhecido fenômeno (muito comum no RS) de políticos eleitos sem que “ninguém” tenha neles votado.

Depositamos nossa confiança no senado. Ali, diziam analistas, teremos um melhor espelho do que realmente é o Brasil. Assim também pensou o constituinte, pois atribuiu ao senado a obrigação da decisão final do impeachment. O que vimos nas manifestações dos senadores ocorridas até às 3 da manhã do dia 30 para o dia 31 de outubro foi, contudo, outro choque de Brasil. Não é possível que os discursos não tenham se alterado uma vírgula entre o início do processo de impeachment e o final. Horas de depoimentos de especialistas, de provas, de debates, arguições, textos e etc. tudo em vão. Era como se nada existisse. A acusação continuava com a catilinária barata do “quebrou o Brasil” e a defesa com o purismo do “não há crime, não há dolo”. Assistimos a um diálogo de surdos no senado. Desculpe, mas Isto não é o “devido processo legal”. Nunca se viu tamanho cinismo e desfaçatez.

Eis que os brasileiros com cérebro, seja de direita, de esquerda, de frente ou de ré; brasileiros vermelhos, azuis, amarelos ou cor-de-rosa; quaisquer seres pensantes que pisem sobre este imenso território estamos chocados. Se a Câmara nos mostrou um espetáculo de ignorância e incapacidade cognitiva o Senado nos mostrou um cinismo e uma inoperância política de impressionar. Este veredito não é difícil de se justificar. De fato, o brasileiro há muito é ensinado a desdenhar a política, isto é parte do jogo que os militares ensinaram e os políticos se jactam. Enquanto nós, cidadãos sérios, de direita, esquerda, ou de ponta cabeça não participarmos da política aquele show dos horrores continuará. Até aqui, entretanto, nada nos é novo. De onde, patavinas, sai a “coração valente”?

Eis que Dilma entra para a História do Brasil como o metro com que conseguimos medir nossa mediocridade. Enquanto nem a oposição pode chama-la de corrupta, mais de 70% dos senadores respondem a inquéritos ou estão condenados por crimes desta natureza. Enquanto o interino fazia conchavos nas sombras e se escondia em carros oficiais, ela adentrou o senado de cabeça erguida e lá ficou por mais de 14 horas. Kim sei lá eu o quê, convidado da direita no Senado, não suportou três horas na “tribuna de honra”. Tirando selfies, sentiu as dores do sentar no corpo jovem e retirou-se. A mulher de quase 70 anos que tinha sido escolhida como presidente, manteve-se incólume, sendo ofendida, maltratada, acusada e a tudo respondendo, calma e ponderadamente. O contraste foi tão evidente que até uma senadora, esposa de apoiador da ditadura e com patrimônio escondido da justiça eleitoral, congratulou a presidenta. Se errou, Dilma foi defender-se abertamente e ofereceu a si mesmo como prêmio a um Senado cínico. A diferença foi tão gritante que o Mundo não entende a nossa troca de Dilma por Temer.

Mas aí está sobre o que precisamos refletir. Dilma é de outra cepa. O Senado e a Câmara são feitos da mesma substância do Brasil. Esta é a beleza da Democracia. A ignorância de Felicianos e Magnos Malta é a mesma que se encontra aos cântaros Brasil afora. O empolamento elitista e preconceituoso de um Aloysio Nunes ou de um Cunha Lima é parte indelével de nossa classe média. O cinismo mudo de um Jucá ou de um Renan é característico de nossas elites. O desprendimento pueril de um Lindemberg ou de uma Grazziotin é também parte da nossa juventude. Aquilo lá é o Brasil, com seus acertos e erros, seus pontos fortes e fracos, suas barbaridades e tristezas. Os conchavos, as mutretas, a venda dos votos por cargos, o fisiologismo, a corrupção entranhada como modus operandi da política … é tudo o mais puro Brasil. Encontramos aquilo em qualquer canto do nosso país. Na coisa pública de cada cidadezinha e também nas empresas privadas. A Zelotes, quem diria, mostra isto todo o dia. Mega-empresários que faziam parte de “conselhos de gestão” são corruptos e sonegadores. Ninguém se salva, do médico que faz consulta mais barata sem recibo, passando pelo professor que inventa uma “saída de campo” sem sentido para diminuir suas aulas, ninguém se salva.

O Brasil é Lula, mas também é Fernando Henrique. Ali é disputa de brasis. O congresso muito bem nos representa. Daquilo ali tudo é que é feito o Brasil. É do fazendeiro escravocrata como Caiado ou da fazendeira autoritária (embora impressionantemente digna) de Katia Abreu. Tudo é Brasil. Dilma não. Dilma não é daqui. Dilma é feita de algo diferente e este contraste constrangeu até os perpetradores do golpe. A segunda votação pela retirada dos seus direitos políticos fez com que até um dos mais cínicos entre os cínicos, Cristóvão Buarque, ficasse envergonhado de si. A diferença entre ele e Dilma não cabe nesta galáxia e o pouco de humanidade que ainda lhe restava rasgou-lhe as vísceras. “Eu fico com ela” disse o golpista, num misto de sincericídio e vergonha.

Dilma finalmente se achou no Brasil. Ela viu que não é daqui. Porém, ao fazer isto Dilma nos mostrou do que somos feitos, do que o Brasil é feito, desde o tempo do império (que por sinal tinha representante da família real na “tribuna de honra” a favor do golpe). O Brasil é feito disto aí. Não há como se exigir mais. Não se pede aos outros o que eles não têm. Nossa pequenez nos saltou aos olhos, nos magoou a alma, deu-nos calafrios por compreendermos que nos falta substância. Foi terrível. Aquela mulher íntegra, altiva de mais de três metros de altura e uma voz tonitroante a nos humilhar fazendo chacota daqueles anões sórdidos e mentecaptos com suas teses insustentáveis.

Vá embora do Brasil Dilma! Vá e deixe-nos com nossa histórica pequenez. Não suportamos vê-la como você é, por isto criamos a ideia de um “coração valente”, porque não sabemos reconhecer nossa tacanhice.

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